segunda-feira, 14 de abril de 2014

Arnaldo Antunes em Votuporanga

Arnaldo Antunes em Votuporanga

   Uma vez eu fui assistir a um show do IRA em Fernandópolis e uma repórter de televisão perguntou para uma pessoa na platéia o que ela achava dessa banda tocar na sua cidade.
      E ele respondeu: 
      - É um milagre!
   Bom, Arnaldo Antunes em Votuporanga também é um milagre. Está certo que ele anda meio afastado da mídia, mas é como ver de perto um Roberto Carlos, um Michael Jackson.
      Certa vez alguém disse que pagaria só para ver Bob Dylan, que ele não precisaria nem cantar, só sua presença já valeria o ingresso.
       E Arnaldo Antunes está para mim nessa categoria de artista. Agora imagine você que eu vi, ouvi e nem paguei nada! Foi parte do Circuito Cultural Paulista que traz shows e espetáculos subsidiados pelo governo.
         Todo mundo conhece o Arnaldo Antunes da época do Titãs. E quem foi criança na década de 80 deve ter infernizado os mais velhos com as músicas "roqueiras" de Arnaldo Antunes. 
           Nessa época me disseram que todo roqueiro era alguém com algum tipo de problema: alguns com problemas afetivos; outros, financeiro; alguns, problemas com drogas, álcool, com o vizinho, com os parentes, com o governo; outros, problemas sexuais, problemas de pele, problemas sociais, morais, psicológicos; enfim, todo tipo de problema.
          E eu, olhando Arnaldo Antunes na televisão naquela época achava mesmo que ele devia ter algum tipo de problema - ou alguns deles - mas não importava porque quando ele abria os braços no palco e soltava sua voz e pulava e dançava ele aliviava todo tipo de problema que qualquer um na platéia pudesse ter.
          Só que agora ele evoluiu - poeticamente, porque a voz grave e bela continua a mesma, continua magro e... Bem, o que importa é que parece que ele escreve o que a gente pensou, ou sonhou, ou quis, ou tentou dizer e não sabia como. Parece que quer nos embalar, nos fazer companhia, talvez até chorar com a gente - inocentemente - como quando a gente era criança e ouvia Titãs, lembra?
          Muita gente bacana já cantou por aqui. Dizem que Vinícius de Moraes (o grande poeta) e até Nelson Gonçalves (com sua bela voz) já pisaram em palcos votuporanguenses. Eu, certa vez, fui a um show do Zé Ramalho, se não me engano na exposição agropecuária. Eu só consigo me lembrar bem do momento em que um conhecido chamado Harlen começou a gritar: Lindo!
            Já ouvi muita gente gritar muita coisa para os artistas no palco, mas aquela cena ficou marcada na minha memória. Naquele dia eu olhava para o Zé Ramalho e ficava me perguntando: lindo? como? por que? O que alguém vê de lindo nesse homem?
           E hoje no show do Arnaldo Antunes também me deu vontade de gritar: Lindo! Lindo! Lindo!
         Um beijo, Arnaldo! Que Deus te abençoe! Todo mundo aqui quer te ver envelhecer, assim desse jeito - como você parece e como a gente queria ser: lindo, leve e livre.


Ivi P.M. - 13/04/2014

domingo, 1 de dezembro de 2013

Um conto de cachorro


TENTAÇÃO

Clarice Lispector
Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.
   Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.
   Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina, acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.
   Lá vinha ele trotando, à frente de sua dona, arrastando seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.
   A menina abriu os olhos pasmada. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.
    Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo.
    Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos.
   Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se com urgência, com encabulamento, surpreendidos.
   No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes de Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.
   Mas ambos eram comprometidos.
   Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.
   A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-la dobrar a outra esquina.
   Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás
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Conto extraído de LISPECTOR, Clarice. A legião estrangeira. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

domingo, 15 de setembro de 2013

Frases, reflexões e pensamentos

                  
Copiados de diversas fontes; alguns, autores consagrados, outros, desconhecidos...
" Se caíste, erga-te anda,
e aprende com a vida,
que só na vida não erra
quem nunca faz coisa alguma."
" Se dizes que a vida é nada,
que tudo no mundo é vão,
olha a semente enterrada,
ressuscitando no chão."
"Preceito exato da vida
a quem não foge ninguém:
cada um vê bem ou mal,
conforme os olhos que tem."
"Marujo domina o mar
remando contra a maré,
sem sofrimento na vida,
ninguém sabe se tem fé."

"A nossa solidão nasce da convivência humana."

"Obstáculo é aquilo que se vê quando se perde o objetivo de vista."

"A política consiste em tentar igualar os homens aos animais, aos quais a natureza outorga alimento, agasalho e abrigo. Essas simples conquistas são muito difíceis para o homem..." (Voltaire)

"Too fast to live. Too young to die."

"Sometimes, somethings are easier than we think."

"Never too young to die."

"Do nada, nada virá."

"Nem todos amam e admiram as mesmas coisas."

"Sometimes so little can mean so much."

"Se o silêncio é ouro, a palavra é prata."

"Desejo-lhe o melhor no que quer que faça e a felicidade onde quer que vá."


terça-feira, 12 de março de 2013

Poesia ou poema?
 
 
   Certa vez o colega Guilherme sabendo que eu escrevia uns textos me perguntou qual a diferença entre poesia e poema e eu que não sabia respondi que era tudo a mesma coisa. Um engano! A diferença eu desobri muitos anos depois lendo um livro desses distribuidos nas escolas públicas e compartilho agora com vocês:
 
   É comum o uso das palavras poema e poesia como sinônimos. Na verdade, poema refere-se à forma, enquanto poesia está ligada ao conteúdo.
   O termo poesia remete à beleza, à emoção, à abstração ou ao sentimento que um texto desperta no leitor, seja ele escrito em prosa ou em verso.
   Poema é o texto estruturado em versos agrupados em estrofes.
   Pode haver poesia em outras manifestações artítsticas, como numa pintura, numa música, numa dança, numa fotografia.
 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Sobre animais


Valorizar a vida

Na década de 80 o cantor Eduardo Dusek, satirizando, cantava: “troque, troque seu cachorro por uma criança pobre”. E hoje o trabalho de pessoas que se preocupam com o direito dos animais ainda sofre algum tipo de retaliação desse tipo: “Se fizessem pelos humanos o que fazem pelos bichos...” ou “Queria ver se fosse gente se eles também tratariam assim...”.
O que queremos que todo mundo entenda é que nas Sociedades Protetoras dos Animais está nascendo a semente da transformação pessoal. Gente que se preocupa com sua harmonia interior, com a saúde do planeta, com a proteção de um ser vivo e está colocando a primeira pedra para que a sociedade possa mudar para melhor. Um mundo onde a ligação do homem com a natureza seja respeitada. Um mundo onde se entenda que o que eu faço afeta a todos ao meu redor, por isso mesmo eu posso fazer tudo o que eu tenho vontade desde que não prejudique ninguém, desde que não prejudique a harmonia da vida ao meu redor.
Uma grande crueldade que os protetores de animais sentem é quando alguém abandona um animal doméstico. Como já disse o cantor Roberto Carlos em uma música: “animal ferido, domesticado esquece o risco.”. Um animal que nasceu em cativeiro dificilmente sobrevive se for solto. Em especial os cães e gatos, além do perigo do atropelamento por automóveis, muitos pegam doenças e por não saberem caçar acabam morrendo de fome nas estradas e nas esquinas. E aquilo que você faz de mal para os outros sempre volta mais forte para você.
Está na Bíblia que Deus criou o homem no 6˚ dia, quando a natureza já estava pronta para recebe-lo e apesar de perder o direito a imortalidade por comer o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, ainda assim o homem permaneceu na espécie em que foi criado, com mente e alma, com domínio sobre os outros animais. É necessário que o homem, sabendo disso, tenha um enorme sentimento de gratidão  para com a vida e respeite a evolução de cada ser.
Acolher e respeitar a cada ser vivo é uma obrigação humana. Ninguém está pedindo para você sair por aí tentando salvar as baleias ameaçadas de extinção. Queremos que faça o possível para cuidar bem daquele ser vivo que você tem em casa, seja ele  um cachorro, um gato ou um passarinho. Se chegou a conclusão de que não tem recursos (se não tem espaço em casa, não tem tempo, não tem paciência ou não tem dinheiro para tratar) então procure doá-lo para alguém que esteja disposto a ficar com ele ou procure a Associação Protetora dos Animais. Nunca o abandone na rua ou num lote vazio.  Isso é crueldade extrema.
E, principalmente, antes de pegar um animal e levar para casa, lembre-se que assim como se fosse um humano, o animal vai exigir de você: tempo, carinho, dinheiro, espaço e cuidados. Se não pode, não pegue. Assim vai ser melhor para você e para ele.
Qual é o trabalho da Associação Protetora dos Animais?
É proteger os animais silvestres contra a violência humana e proteger os animais domésticos contra o descaso e o abandono. Ninguém duvida que é mais importante alimentar uma criança do que salvar um animal da fome. Mas esperamos que chegue um dia em que não seja preciso escolher a quem alimentar, pois haverá comida e acolhida para todos.
E quando alguém pergunta: “ah, por que perder tempo resgatando cachorros abandonados se há tantas questões mais urgentes para serem tratadas?”. Respondemos simplesmente que não há questão mais importante do que a vida, seja a minha, a sua ou a de um gato.
Queremos que as próprias crianças sejam envolvidas nesse trabalho de proteção dos animais, para criar uma nova consciência coletiva.
Porque quando resgatamos cachorros ou gatos que um dia foram abandonados nas ruas de Votuporanga, não estamos querendo apenas salvar as vidas desses animais. Queremos muito mais, queremos resgatar os valores humanistas já um pouco esquecidos. Resgatar o amor à natureza, resgatar a harmonia entre os seres, resgatar a compaixão, resgatar a solidariedade, a empatia, o trabalho em equipe, resgatar acima de tudo aquele sentimento que se bem cultivado como semente pode dar muitos frutos: a valorização da vida.


Esse texto eu fiz para Neide Romani que me pediu que escrevesse sobre a crueldade que é o abandono de animais domésticos.

sábado, 27 de outubro de 2012

Entremediuns- encontro espírita

ENTREMEDIUNS 2012

   Quando a gente fala de espiritismo lembra de gente carrancuda, música instrumental bem baixinha, silêncio e penumbra, certo?
   Pois não foi nada disso que o Centro Espírita Caminho de Damasco trouxe para Votuporanga nos últimos dias 19, 20 e 21 de outubro.
   O ambiente era festivo, iluminado, as pessoas conversavam e riam e batiam palmas, como nunca esperávamos ver num encontro espírita.
    O assunto em pauta era da maior seriedade, Mediunidade e saúde integral. E por falar em saúde, explico a minha surpresa com esse encontro: eu sempre vi o centro espírita como um lugar de enfermos... porque a maioria procura o lugar quando ninguém mais deu jeito, já foi desenganado pelos médicos, o pai de santo não resolveu, e nem o padre adiantou, aí apela-se para o centro... ou então quando a dor da perda de alguém muito querido começa a atrapalhar o viver... Dizem que você procura o espiritismo "pelo amor ou pela dor..." e a maioria vem pela dor!
    Mas no Entremediuns o ambiente era diferente. Até os palestrantes me surpreenderam. Se você já foi a uma palestra espírita sabe que o tom é sempre o mesmo e os ensinamentos giram em torno da caridade, do desapego ao bens terrenos, da necessidade de suportar as provações que são lições para a evolução espiritual, tudo bem, mas os palestrantes dessa vez vieram falar de forças interiores, de autoconhecimento, de estudo para a evolução, de comportamento no bem, de fé, de alegria. Além de aprofundarem-se na doutrina espírita kardecista, eles utilizaram vários temas transversais, desde a medicina e a física até a psicologia e a filosofia.
   Músicas ilustraram as palestras em vários momentos. E além da brilhante oratória tivemos ainda dois músicos profissionais: Danilu, que já foi calouro do programa de Raul Gil e deu um show de interpretação e Van San, que é presença obrigatória quando se fala em evangelização pela música.
   Não vou detalhar aqui os temas das palestras porque quem quiser pode passar na Editora Sintonia e adquirir (www.editorasintonia.com.br).
     Escrevo para dizer que este é o quinto ano do Entremediuns, que contou com a participação de 52 cidades do Brasil (incluindo lugares distantes como Natal e Curitiba), apresentando o espiritismo de uma forma lúcida e moderna, ao mesmo tempo que resgata as raízes do movimento.
     Se houve pontos negativos? Ao meu ver faltou só um bebedouro público porque só tinha água no bar. A justificativa extra-oficial que ouvi é que o evento é beneficente por isso a água também era vendida para arrecadar dinheiro.
     Mas os ponto positivos foram inúmeros. Uma aula de comportamento e espiritualidade.
     Entremediuns 2013 já começa a ser preparado.
     Se você já é espírita, vale muito a pena essa reciclagem de conhecimentos e se não é, pode ser um bom lugar para aprender um pouco mais...Porque agora só falta você!